Bombeiros de Portugal – BPS – Associação Bombeiros para Sempre

Opinião: As Ambulâncias São Meros Veículos de Transporte

O primeiro esboço de termos neste país um sistema de emergência médica organizado começou com a implementação do SNA na década de 70, e com a passagem deste na década de 80 para o INEM em que  houve um desenvolvimento qualitativo com a implementação do CODU, mudança que permitiu apostar na diferenciação das tripulações de Ambulâncias, bem como na medicalização do sistema, pela introdução de recursos médicos, hoje designados de VMER.

A grande mudança dá-se mesmo com a medicalização do sistema, em que se deixou de ver a emergência como transporte do doente para o hospital, mas sim, a necessidade do mesmo ser assistido previamente e encaminhado para o hospital com as melhores condições para o seu tratamento. Neste sentido a formação dos tripulantes foi cada vez mais desenvolvida, graças a equipa que integrava o Departamento de Formação do INEM, que cada vez mais apostou no desenvolvimento desta área. Em 80 com a criação do SMER da Amadora, e implementando-se no CODU de Lisboa ambulâncias medicalizadas, inicialmente com uma equipa da CVP e posteriormente com elementos TAEM (atualmente TAS) que pertenciam aos Bombeiros, e PSP em que o espírito de missão e a dedicação permitiu o desenvolvimento e diferenciação cada vez maior destes elementos, fruto da partilha de conhecimentos entre médicos e TAEM, o que permitiu mais tarde, já sem médico nas ambulâncias que estes elementos, praticassem alguns atos, como acessos venosos, a administração de alguns fármacos, atuação que acontecia através de validação e controlo médico existente no CODU, o que se demonstrou uma diferenciação positiva nos cuidados prestados aos doentes em ambiente pré-hospitalar.

A diferenciação destes tripulantes, permitiu pelo seu exemplo e também porque pertenciam na sua maioria aos Corpos de Bombeiros da Zona de Lisboa, que existisse uma melhoria significativa do socorro prestado pelos bombeiros nas suas áreas de intervenção.

Em 94 o INEM organiza o primeiro curso de técnicos de emergência, curso que foi ministrado pelos médicos que integravam o CODU na altura em conjunto com elementos enfermeiros, acompanhado de estagio hospitalar nas diversas valências, o objetivo era dotar alguns tripulantes das valências cientificas que complementassem a sua atividade, mas também de estes poderem integrar o departamento de formação, levando assim a uma melhora da formação ministrada, ajustando-a a esta nova realidade, o que aconteceu, permitindo o aumento da resposta e termos de formação ministrada, mas também a revisão dos conteúdos ministrados, levando a que a formação ministrada se aproxima-se do que até ali era prática na generalidade dos países europeus.

Assim, se manteve esta diferenciação, até ao Euro.

Com o surgimento do Euro, aliada a uma gestão de números permitiu-se todas as barbaridades e mais algumas, desde serem ministrados cursos TAS em 15 dias, e recertificações por equivalência, tudo valeu para justificar os números que eram necessários apresentar, em que alguns ludibriados pelo facilitismo, não perceberam que estavam a destruir a credibilidade que tanto esforço custou ter, aliás, algo que ainda perdura, com o atual modelo de formação.

Em 2007, com a exclusão dos técnicos das VMER, em que são substituídos por enfermeiros, permitiu a monopolização do INEM tendo como consequência, em que hoje qualquer decisão esta literalmente pendurada na ida ao local de uma VMER, algo que não acontecia no passado, em que, quando a VMER era solicitada muitos dos procedimentos necessários já se encontravam iniciados, e estamos a falar de o doente ter um acesso venoso, um ECG realizado, ou mesmo alguma medicação realizada, tudo após validação médica.

É lógico que o que se passou de 1990 a 2004 era uma realidade circunscrita a Lisboa, mas que o seu sucesso permitia a replicação do modelo no resto do território, uma vez que se provou que é possível, fazer mais e melhor com os profissionais que andam no terreno e que todo o dia lutam contra a morte dos doentes e feridos que transportam, mas o facto é que com a exclusão dos técnicos das VMER e a transformação das Ambulâncias em meros veículos de transporte tudo parou, poderá mesmo dizer que regrediu, em que hoje as ambulâncias servem meramente para transportar os doentes, e em que os técnicos basicamente avaliam parâmetros vitais, isto tudo para justificar a presença de outros, que durante décadas sempre viraram as costas ao PH, e que agora motivados pela procura de um currículo, ou de um emprego, transformaram a emergência num jogo de interesses em que o que conta cada vez menos é a necessidade de socorrer adequadamente, ou então, a de apresentação de números, ou de pseudo estudos científicos que lhes atribua protagonismo.

Este fato, e o desenvolvimento que houve da formação e da prestação do socorro prestados pelos técnicos do INEM durante os anos de 1990 a 2007, tem vindo propositadamente a ser votado ao esquecimento, uma vez que prova do que somos capazes de fazer com a formação adequada, por isso é necessário relembrar os decisores de quem somos o que fomos e o que somos capazes de fazer com a formação e ferramentas adequadas.

E assim, vamos andando, talvez agora com o surgimento do TEPH algo mude, mas sobre isso já divaguei num artigo anterior.

Nelson Batista

Edição I Luis Gaspar – BPS
Foto I Miragaia Tomás

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