“Se Terramoto Deixar Lisboa Inoperacional, Não Há Meios Para a Socorrer”

Celebra-se, esta quinta-feira, o Dia Internacional do Bombeiro. O Notícias ao Minuto entrevistou o presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais, Fernando Curto, que assegurou que em Portugal “estamos sempre nos recursos mínimos ou abaixo dos mínimos” e que há uma série de questões a “contribuir para uma má prestação de socorro”.

“Deveria haver uma força de reserva que estivesse disponível para intervir. Nós estamos sempre nos recursos mínimos ou abaixo dos mínimos”, assegura Fernando Curto.

“Eu não consigo entender que o Governo queira reduzir o salário dos sapadores. (…) nem que os políticos pensem que um bombeiro deve andar a apagar fogos aos 50 e tal ou 60 anos”, atira, convicto de que “a não definição de todas estas situações pode contribuir para uma má prestação de socorro”.

Além de presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais, é também bombeiro…

“Eu sou bombeiro há 32 anos, comecei aos 20. Tenho quase idade para me reformar e ainda cá ando, o Governo não me deixa reformar.”

“Não gosto que nos coloquem o rótulo de heróis porque nós não o somos.”

Em que é que um bombeiro pensa quando enfrenta as chamas?

“Depende do tipo de incêndio. Em primeiro lugar, há um referencial que todos aprendemos quando nos tornamos bombeiros. Quando somos chamados, a central comunica ao chefe que lidera o serviço que tipo de incêndio é e nós vamos preparados para isso. Naquele momento não pensamos em muito, pensamos no que temos de fazer, estabelecemos as regras que estão implementadas. Se a ocorrência for com pessoas, atuamos de uma maneira, senão atuamos de outra.”

Não há emoção à mistura nesses momentos?

Claro que há. Nós estamos um pouco curados em relação à adrenalina dos incêndios. Temos como princípio, enquanto bombeiros profissionais, que só estamos a produzir para o país quando não fizermos rigorosamente nada, ou seja, os bombeiros estão cá numa perspetiva de prevenção e quando estão a trabalhar é sinal de que alguma coisa está a correr mal para as pessoas e para o país. Nos primeiros tempos, há sempre adrenalina, mas vai-se diluindo ao longo dos anos.

O bombeiro é recorrentemente apelidado de herói pela coragem demonstrada no combate aos incêndios florestais que lavram com especial incidência no verão.

Sim, é precisa coragem. Mas há uma coisa que gostava de dizer: nós não somos propriamente heróis e às vezes vejo discursos um bocado miserabilistas, se me permite a expressão. Os bombeiros não são isso, os bombeiros são técnicos. Eu não gosto que nos coloquem o rótulo de heróis porque nós não o somos. A população indiretamente fá-lo, é normal, mas eu enquanto bombeiro não tenho de o fazer, tenho de interiorizar que tenho uma profissão de risco, que tenho de ter o maior cuidado possível na minha intervenção e de fazer o meu trabalho da melhor forma possível.

“Não conseguimos entender que os políticos pensem que um bombeiro deve andar a apagar fogos aos 50 e tal ou 60 anos.”

Como é que olha para o novo estatuto dos bombeiros profissionais que está a ser pensado pelo Governo?

Nós estamos um bocado perplexos. Houve um documento de que estamos há 10 anos à espera e o secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, já veio dizer em ofício que este documento não deve ser tido em conta. Estamos à espera de ser consultados para que possamos discutir isto junto do secretário de Estado, que já tem a proposta da ANBP. Há duas situações relativas ao estatuto que são para nós extremamente importantes. Uma é a situação remuneratória: não nos vemos a ganhar menos, já basta que o anterior governo nos tirasse dinheiro que é nosso.

A outra questão é a da aposentação. O que defendemos é que haja uma reorganização que faça com que os bombeiros entrem mais cedo (aos 20 ao invés dos 25/27 anos) e saiam mais cedo da profissão.

O documento elaborado pelo Governo prevê uma redução do salário dos bombeiros sapadores.

Trata-se de equiparar o salário dos bombeiros municipais e sapadores, tendo em conta que os bombeiros municipais ganham menos do que os bombeiros sapadores. Mas, a balizar os valores, tem de se balizar pelas remunerações dos bombeiros sapadores. Não consigo entender – e acho que não é isso que vai acontecer – que o Governo queira reduzir o salário dos sapadores.

Prevê-se que o estatuto do bombeiro fique concluído quando?

A senhora ministra diz que até ao final do ano o documento vai ser aprovado. O que nós defendemos em termos de timing é que a uniformização de bombeiros sapadores e municipais deveria demorar três anos, até para as câmaras terem tempo para enquadrar tudo isto. Há um trabalho muito grande que não se faz de um dia para o outro. É curioso, porque ainda não vimos esta proposta em lado nenhum.

A cada verão que passa, o país é fustigado por incêndios e repetem-se as promessas para o ano seguinte. O Governo apostou o suficiente na prevenção para que o próximo verão seja mais calmo?

Ainda que se invista este ano ou no anterior, a prevenção só irá dar frutos daqui a muito tempo. É algo que não se vê, daí que não se invista muito nela. E efetivamente continua a haver um desequilíbrio muito grande entre a prevenção e o combate. Enquanto não invertermos isto, haverá incêndios.

O Governo tem-se mostrado empenhado em ajudar os bombeiros, tal como manifestou no final do verão passado?

Sim, tudo está bem feito e organizado no que diz respeito ao dispositivo. A única questão que se coloca é a da intervenção, ou seja, não se pode ter um dispositivo com bombeiros voluntários pagos a dois euros à hora. Isto é uma guerra dos bombeiros contra o fogo. Tem de haver uma força conjunta, profissional e rápida que permita abafar o incêndio. O único senão é continuarmos todos os anos a procurar nas associações humanitárias bombeiros a quem se paga dois euros à hora. Agora parece que os GNR, os polícias e as tropas vão apagar incêndios, o que é outra estupidez. Eu também não me vejo de arma na mão a combater nada nem sou polícia para passar multas. Eles não têm formação suficiente e parece que o Governo quer por a GNR a fazer tudo neste país.

“Se houver um terramoto e a cidade de Lisboa ficar inoperacional, quem é que socorre na área metropolitana? Não conheço bombeiros com meios suficientes.”

O Ministério da Administração Interna tem ido de encontro às vossas necessidades?

A ministra e o secretário de Estado têm estado disponíveis para mudar tudo isto. Tenho a noção de que não é de hoje para amanhã, mas também tenho a noção de que têm de arrepiar caminho rapidamente. Se este Governo não o fizer, vai adiar para o outro, que vai adiar para o outro, e as coisas complicam-se. É necessário o associativismo e valorizar as pessoas, mas o pragmatismo e fundamentalismo na nossa profissão são o mais importante.

Temos falado de um incêndio florestal ou urbano, mas podemos falar de um atentado terrorista, de um terramoto. Se houver um terramoto e a cidade de Lisboa ficar inoperacional, quem é que socorre na área metropolitana? Não conheço bombeiros com meios suficientes, com toda a franqueza. Os bombeiros da periferia não têm viaturas e homens como há em Lisboa. São estas questões que os políticos deviam debater, ao invés de as evitar ou adiar.

por GORETI PERA em https://www.noticiasaominuto.com/ pode ver artigo original em https://www.noticiasaominuto.com/vozes-ao-minuto/786894/fernando-curto-presidente-da-anbp?utm_medium=email&utm_source=gekko&utm_campaign=daily

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