Opinião: A Falácia de Um Sistema

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Passado alguns dias do incêndio de Pedrogão muita tinta e palavras se usaram e usarão não existindo actualmente uma conclusão sobre os reais motivos da tragédia associada. No entanto muito ainda haverá por dizer, e na minha humilde opinião acho que o acontecimento está a ser erradamente analisado do ponto de vista do incêndio florestal, quando este deveria estar a ser analisado do posto de vista organizacional, quer como uma operação de protecção civil e com uma operação de socorro, uma vez que mais uma vez o que, não se verificou (pela informação disponível) foi uma organização eficaz do teatro de operações, bem como a ausência completa daquilo que deve ser a gestão de uma operação de protecção civil,  algo que já é comum, poderá mesmo dizer estrutural do nosso sistema, ou seja, sendo esta catástrofe de origem num grande incêndio florestal ou outra causa natural ou tecnológica os problemas serão os mesmos.

Comparando estes acontecimentos associados aos incêndios florestais como os ocorridos em 2012, 2005 ou 2003 , podemos dizer que em muitos casos as falhas nestes foram ao nível táctico e manobra, principalmente os de 2012 que mataram 8 bombeiros, no entanto este de Pedrogão poderá dizer-se que a falha foi ao nível de Comando, uma vez que pelos vistos não existiu uma analise da progressão do incêndio ou mesmo de um planeamento atempado das suas consequências, posteriormente agravadas pelo fenómenos meteorológicos e pela “normal” falha nas comunicações da rede SIRESP, ou seja não existia o denominado plano B, limitando-se a estrutura a reagir ao que ia surgindo.

Assim, temos de por em causa não só a estrutura organizacional da ANPC, mas sim o que se anda a leccionar em termos de gestão e organização dos teatros de operações, uma vez que pelos vistos sistematicamente os modelos que são ensinados são simplesmente ignorados pelos comandos locais, fato agravado pelo conceito de quintal que ainda perdura,  mas também pelos comandos distritais, estes da dependência da ANPC, ou seja, anda-se a formar e a gastar milhões em formação para encher currículos e preencher calendário, para que os elementos em causa possam ser nomeados em muitos casos tendo em conta não a sua competência técnica e de direcção mas sim um jogo de interesses em que em muitos casos prevalece o protagonismo de uns e outros.

Podemos concluir que temos uma ANPC direccionada em exclusivo aos incêndios florestais, que ignora por completo a sua competência como órgão do estado na gestão e coordenação do que são operações de protecção civil, dedicando-se ao Comando Operacional das operações de socorro, sobrepondo as suas vontades a uma estrutura que está assente na boa vontade, assim, esta criado um sistema que está condenado a falhar em que a responsabilidades diluem-se num conjunto de elementos permitindo que nunca exista uma lição para o futuro.

Se queremos melhorar tem de existir quem comande as operações de socorro, que tem o objectivo de resolver o sinistro, mas tem de existir uma verdadeira coordenação de uma operação de protecção civil que tem de controlar e minimizar as consequências do sinistro seja este resultado de um incêndio florestal ou de qualquer outra ocorrência de origem natural e tecnológica.

Para isso a formação dos quadros de comando e dos demais agentes de protecção civil, incluindo a estrutura da ANPC,  tem de deixar de ser vista como um calendário a cumprir, ajustada a vontade de quem dirige, mas sim ser encarada de forma séria dotando aqueles que a frequentam de competências reais que posteriormente possam ser avaliadas e retiradas as diversas ilações de melhoria, e não como acontece hoje em que o termo “voluntário” tem sido sinónimo de “coitadinho” que não pode estar na ENB ou em outras acções formação porque não tem tempo disponível, ficando a pergunta, se não o tem como poderá continuar de forma efectiva a exercer a sua função?.

Uma vez que esta consome muito mais tempo do que aquele que é necessário para a sua formação, e quanto mais mal formado mais tempo demora na resolução dos problemas em muitos caso de forma ineficaz.

Mas também é verdade que o actual sistema permeável aos diversos interesses, menos os dos Corpos de Bombeiros e das populações que devem servir, em que a imposição de um sistema de comissões de serviço não permite que qualquer elemento que vá para o comando permaneça neste cargo tempo suficiente de forma a ter o conhecimento prático e o amadurecimento dos seus conhecimentos na área, originando uma rotatividade e a uma e consumo de recursos formativos que não é vista em mais lado nenhum.

Hoje a permanência num lugar somente é possível, na generalidade dos casos, aqueles cedem aos interesses de quem o nomeou que em muitos casos tem um problema que é ter um Corpo de Bombeiros, ou mesmo poderá dizer-se ter bombeiros, estes últimos que são mão de obra escrava de um sistema que somente serve alguns, em que dão o seu esforço, tempo e em muitos casos a vida por uma estrutura que os despreza, usa e abusa de forma a atingir os seus fins.

Nelson Batista

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