Opinião: O SIRESP tem as costas largas! Anda tudo a dormir!

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Este ano, mais uma vez, e infelizmente, estamos a ter incêndios de grandes proporções com muitas vítimas o que é lamentável. Não posso é ficar calado para, mais uma vez, todos se estarem a desculpar com o SIRESP e nós, bombeiros, continuarmos esquecidos e a servir de “carne para canhão”.

Todos querem agora preparar a reforma da floresta. Criam comissões para fazer essa avaliação e até já se fala com naturalidade na criação de uma força profissional especializada no combate, prevenção e vigilância para as florestas, ou seja, bombeiros profissionais florestais.

Onde ficam então aqueles que já fazem parte do sistema há tantos anos, que dão o corpo às balas quando tudo falhou e, como sempre, no final no Verão, são esquecidos? Falo, como é evidente, dos bombeiros, “aqueles gajos porreiros”.

Começaram os incêndios e é ver um corrupio de alguns “travestidos” de canal em canal, de jornal em jornal, a falar sobre o que aconteceu, o que não aconteceu, o que devia ter acontecido com mil e uma teorias, mas o que eu não ouvi até agora (para além das falhas no SIRESP e o desordenamento da floresta) foi que, além desses problemas, é necessário resolver e organizar os bombeiros portugueses. Até agora, nada foi feito, estando a legislação para o setor e carreiras a “marinar”. Senão, vejamos.

Força Especial de Bombeiros- 260 homens, incluindo comando, continuam sem estatuto, sem carreira e sem reforço de efetivos, sem horário legal, regulamentado. Isto não foi culpa do SIRESP nem do desordenamento florestal.

Bombeiros Sapadores e Municipais- continuam sem estatuto aprovado, carreiras congeladas, ingressos bloqueados devido a constrangimentos orçamentais das autarquias, vencimentos miseráveis, como é o caso do bombeiro municipal, que recebe o ordenado mínimo nacional, onde está já incluído o suplemento de 2,1% de disponibilidade permanente…isto não foi culpa do SIRESP nem do desordenamento florestal!

Continuamos a receber pedidos de ajuda de bombeiros profissionais das associações humanitárias, alguns com ordenados em atraso, perseguições laborais, sem carreira. Isto também não é culpa da falha do SIRESP, nem do desordenamento florestal!

Corro o país de norte a sul e ilhas, em reuniões e plenários onde contacto com muitos direções e comandos de associações humanitárias que se queixam da falta de financiamento para o sector, dificuldades em mandar bombeiros à formação, dificuldades de recrutamento de novos bombeiros (em especial de voluntários), dificuldades gravíssimas para pagarem os vencimentos a tempo e horas aos seus profissionais, estando sempre dependentes de boas vontades das autarquias, do Estado e do INEM. Isto também não é culpa do SIRESP nem do desordenamento florestal.

Assistimos, novamente, às dificuldades do INEM em implementar as forças no terreno e dar resposta a estas ocorrências quando os bombeiros há muito reclamam mais financiamento para emergências pré-hospitalar e têm protocolos com o INEM com valores muito reduzidos e que muitas vezes mal dão para pagar os custos que os bombeiros têm com as ambulâncias INEM na sua corporação. Isto também não é culpa do SIRESP nem do desordenamento florestal.

Nos últimos dias fomos confrontados com os problemas dos comandos, da formação dos comandos, da nomeação dos comandos, dos requisitos necessários para ser comandante e elemento do quadro de comando, quando todos sabemos onde está o problema, mas é mais fácil dizer que foi tudo culpa do SIRESP e do desordenamento do território.

Poderia falar mais relativamente a este tema, mas considero que estes exemplos são mais que suficientes para que as pessoas que têm responsabilidade no sector- os nossos governantes- resolvam os problemas que nós temos e não “empurrem com a barriga” os problemas do sector.

É necessário que haja uma reforma da floresta? Então que se avance e se faça! Mas não se esqueçam, nem finjam, que os bombeiros e todo o sistema que gravita em torno deles, está organizado, porque não está!

Será que ninguém viu, nestes grandes incêndios, bombeiros a dormir pelo chão ou em cima dos carros?

Será que ninguém viu bombeiros a comer em pratos de plástico, com talheres de plástico, em cantinas montadas artesanalmente, cheias de boa vontade?

Será que ninguém percebe que uma estrutura profissional e organizada como deve de ser uma estrutura de combate de incêndios com esta dimensão- e estamos a falar de cenários característicos de uma situação de guerra- precisa de uma outra logística?

Será que ninguém viu serem feitos pedidos de donativos alimentares à população para garantirem a alimentação dos bombeiros?

A população aderiu em massa a estas solicitações, mas o que aconteceria se voltasse as costas? E se as cozinheiras e cozinheiros que se deslocaram aos quartéis de bombeiros gratuitamente para confecionarem as refeições, não o fizessem?

É este o modelo de socorro e de logística de socorro que queremos para o nosso país? Vi cozinhas montadas pelas estruturas militares mas que não davam resposta a todos os operacionais nos vários cenários e em que a alimentação fornecida tinha em conta as funções que os bombeiros estavam a exercer, ou seja, ajustadas as necessidades nutricionais que um bombeiro tem quando está no Teatro das Operações.

Todos vimos colunas de bombeiros do Algarve, do Norte do país, de Lisboa, a fazer os trajetos de sempre. Mas afinal, onde andam tantos bombeiros, aqueles que todos dizemos que temos mas que não chegam, porque por esta altura temos que andar a ir buscá-los aos quatro cantos do país? Isto não tem custos? Por que razão a FEB só tem, neste momento, 260 bombeiros e os GIPS da GNR mais de 700? Afinal queremos bombeiros ou Guardas- Republicanos?

Este é um pequeno exemplo do que todos vimos nos últimos tempos. Como sempre, e para finalizar, também vimos autarquias que não acionaram planos de emergência, câmaras que não têm os planos municipais de defesa conta incêndios (PMDFCI) atualizados ou aprovados, comandantes em part-time, corpos de bombeiros em zonas de risco elevado com apenas uma equipa de primeira intervenção porque não têm condições para ter mais, corpos de bombeiros que perderam homens no teatro das operações ou que têm bombeiros internados porque deram tudo na defesa da sua população.

Mas será tudo isto, culpa do SIRESP e do desordenamento florestal? Então onde anda a profissão de risco dos bombeiros? Onde anda a regulamentação da sua idade para a aposentação, para terem um fim de vida digno? Onde anda um vencimento justo para esta atividade, que na maior parte dos casos é igual ao salário mínimo nacional e inferior ao vencimento que aufere qualquer profissional de uma força de segurança, seja da PSP ou da GNR?

Quando falamos no DECIF e no pagamento aos bombeiros que fazem parte das equipas do DECIF, porque não é transferido o dinheiro diretamente para cada bombeiro que faz parte dessas equipas e para a sua identificação fiscal?

Era muito fácil faze-lo e assim sabíamos quem está no dispositivo a qualquer momento e a qualquer hora. Alguém acredita que um bombeiro aguente 24 sobre 24 horas no combate aos incêndios florestais? Para quando horários máximos de 12 horas? Não podemos ter equipas a 24 horas. Não há capacidade de resposta nem garantia de rotação das mesmas.

“A procissão ainda vai no adro”, mas os bombeiros não podem ficar calados, porque olhando para o passado e para todos os estudos anteriores, as conclusões que aí veem serão as mesmas. Não sendo futurologista e olhando para o que aconteceu, foi mais do mesmo. Ninguém teve culpa, o sistema está bem montado. A culpa foi do SIRESP e do desordenamento florestal!

Com a idade, vamos tirando algumas conclusões destes verões e destes grandes incêndios. Ou nós, bombeiros, somos mesmo os melhores do mundo e conseguimos trabalhar nestas condições e aceitamo-las, chegando ao ponto de morrer em serviço, ou então somos mesmo muito burros e não percebemos que estamos a ser usados!

Sergio Carvalho
Presidente do Sindicato de Bombeiros Profissionais

 

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