Opinião: Da Fase Charlie à Fase do Desenrasque

Foto: Pedro Costa
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No que concerne aos incêndios florestais, este foi o ano da mudança onde sofremos profundas alterações que nos conduziram a grandes e reconhecidos progressos, senão vejamos: passamos a comer ração de combate (passamos?), andar de comboio (e nos cerca de 270 autocarros previstos) (foi mesmo?), o CDOS passou a despachar meios em menos de 2 minutos (será?), e… e… e… isto tudo e mais algumas coisas que não importa agora referir como as pseudo-licenciaturas (não sou eu que o digo, é a comunicação social) de alguns quadros da ANPC.

Foi, para além disto tudo, também, em mortes (directamente relacionadas com os incêndios) o pior ano de sempre. Pedrogão teve até, a “ousadia” de entrar no top ten mundial dos piores incêndios florestais registados.

Apesar de todos reconhecermos que estivemos perante um ano atípico, deixando fora do controlo alguns incêndios, importa tirar conclusões, porque de perguntas e questões está Portugal cansado e bombeiros fartos.

Assim:

  • Existiram durante o verão, bombeiros exaustos, desorientados, perdidos no espaço e no tempo, sem qualquer capacidade operacional de dar uma cabal resposta aos incêndios. Homens e mulheres que se limitaram apagar “aqui e ali” as frentes de fogo por onde iam passando, sem qualquer comando que lhes determinasse missões de forma clara e objectiva;
  • Parece não existir qualquer responsabilização politica, onde não se vê cabeças a rolar, nem culpas atribuídas;
  • O reforço de meios e medidas “ad-hoc” para o verão tem vindo a ser uma constante (ano-após-ano), no entanto, o tempo tem-nos provado que ou não são exequíveis ou pior, são, mas não resultam;
  • A estrutura da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) já deu provas de ser demasiado pesada, ultrapassada e com demasiados patamares para que consiga dar respostas céleres, prontas e capazes às ocorrências de grande complexidade que vão surgindo (a prova disso mesmo é a extinção “à pressa” da figura do CADIS);
  • A ANPC tornou-se aos olhos do povo Português uma entidade sem prestigio, descredibilizada e achincalhada na praça pública, quer pela população quer pela comunicação social (assistíamos a isso em todos os telejornais);
  • De uma vez por todos é necessário compreender que a ANPC não deve ter por missão comandar, mas antes, coordenar;
  • O comando deve ser passar por uma assunção dessa tarefa por parte dos bombeiros. São eles que conhecem o terreno, que estão e andam lá diariamente. Mais, é diferente do ponto vista emocional, afectivo e de conhecimento acatar ordens provenientes da sua estrutura do que de uma outra, sem qualquer afinidade e acima de tudo, sem valores similares ou compatíveis;
  • Este modelo de comando e coordenação está gasto. Há anos (cerca de 10) que os bombeiros estão afastados da população, urge devolver aos operacionais do terreno as competências e obrigações de outrora. Funcionava, não tinham que alterar!
  • Não chega empenhar o dispositivo de forma pronta e coesa apenas em 3 meses do ano. No mínimo, o dispositivo deve estar na sua máxima força de Maio a Outubro (recorde-se que Pedrogão surgiu em Junho) incluindo meios aereos (leia aqui).

Terminou ontem a Fase Charlie do DECIF, mas… paradoxalmente, o período critico foi alargado até 15 de outubro, deixando uma vez mais, Portugal à mercê da sua sorte. Na pratica passamos de fase charlie à fase do desenrasque.

Cesso esta minha intervenção, apelando aos agentes políticos que tenham a coragem de ouvir os bombeiros (in loco), venham ao terreno e entendam o que esta mal, só assim é que de forma séria, se podem fazer alterações que visem o superior interesse da população Portuguesa.

À Liga de Bombeiros Portugueses que elegerá, no seu congresso ordinário de Outubro os seus novos lideres, deixo um apelo sentido e sincero, lutem por nós e acima de tudo pela recuperação do nosso comando próprio. Ao longo de décadas demos provas de sermos capazes de fazer o que outros fazem agora, vamos readquirir aquilo que nunca deveria ter saído das nossas mãos.

Luís Gaspar
ABPS

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