Opinião: A Culpa Não É da GNR

Fernando Curto
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Ao longo dos últimos dez anos, os sucessivos governos viveram à custa dos bombeiros portugueses. Basta recordar o que os sucessivos candidatos e depois Primeiros -Ministros do País disseram a ANBP/SNBP quando com eles reunimos e, apesar de terem dito de forma diferente, todos disseram o mesmo:

Eng. António Guterres 1995 – Estamos sensíveis para os problemas dos bombeiros portugueses e vamos rever, nomeadamente, a carreira dos bombeiros profissionais. Podem contar com o meu Governo se formos eleitos;

Dr. Durão Barroso 2002 – Estamos sensíveis para os problemas dos bombeiros portugueses e vamos rever, nomeadamente, a carreira dos bombeiros profissionais. Podem contar com o meu Governo se formos eleitos;

Dr. Pedro Santana Lopes 2004 – Estamos sensíveis para os problemas dos bombeiros portugueses e vamos rever, nomeadamente, a carreira dos bombeiros profissionais. Podem contar com o meu Governo se formos eleitos;

Eng. José Sócrates 2005 – Estamos sensíveis para os problemas dos bombeiros portugueses e vamos rever, nomeadamente, a carreira dos bombeiros profissionais. Podem contar com o meu Governo se formos eleitos;

Dr. Pedro Passos Coelho 2015 – Estamos sensíveis para os problemas dos bombeiros portugueses e vamos rever, nomeadamente, a carreira dos bombeiros profissionais. Podem contar com o meu Governo se formos eleitos.

Ao longo destes 21 anos de 1995 a 2015 NENHUM Governo solucionou as reivindicações JUSTAS e LEGÍTIMAS dos bombeiros portugueses.

Também ao longo destes anos ANBP/SNBP apresentaram SEMPRE relatórios e conclusões referentes às ocorrências e, nomeadamente, aos incêndios florestais que tiveram lugar no nosso País.

Participamos em várias audições parlamentares promovidas pela Assembleia da República onde uma vez mais reafirmamos as soluções para a resolução dos problemas que ainda afectam os bombeiros portugueses e, nomeadamente, os bombeiros profissionais.

Durante os mandatos destes Primeiros- Ministros reunimos com os respectivos ministros e Secretários de Estado onde reapresentámos as nossas reivindicações e onde foram, ao longo destes anos, produzidas propostas legislativas com trabalho do gabinete do Ministério da Administração Interna e da Direcção de ANBP/SNBP sem NUNCA terem sido, apesar do reconhecimento dos governantes da necessidade dessa legislação, aprovadas ou publicadas oficialmente para solucionar as deficiências com que os bombeiros profissionais se deparavam e ainda deparam.

Acresce referir que também ao longo destes 21 anos reunimos com TODOS os Grupos Parlamentares com representação na Assembleia da República onde REFORÇAMOS com projectos e trabalhos deixados aos deputados que connosco reuniram e NUNCA NADA FOI FEITO PELOS BOMBEIROS PORTUGUESES.

O Governo que tomou posse em 2011 também se portou mal até agora. A anterior Ministra e o anterior Secretário de Estado, ao exemplo dos Governos anteriores, criaram um Grupo de Trabalho no MAI com ANBP/SNBP onde, uma vez mais, foi produzido um ante-projecto legislativo para que fossem, de uma vez por todas (dito por esses Governantes) criada legislação para os bombeiros profissionais portugueses (sapadores, municipais, profissionais da Associações Humanitárias, Força Especial de Bombeiros e todos os bombeiros profissionais a trabalhar no CNOS e CDOS).

Com o Governo que tomou posse em 2015 e nomeadamente com o Secretário de Estado da Administração Interna e depois de muito trabalho, muitas horas de reunião, foi produzido um dossier legislativo que seria aprovado no primeiro trimestre de 2016. MAS NÃO FOI. Veio a Senhora Ministra da Administração Interna dizer, e bem, depois do trabalho produzido e aprovado, que seria publicado até final de 2016. MAS NÃO FOI.

Claro que, e afirmo sem qualquer excitação, se os sucessivos governos ao longo destes últimos 21 anos tivessem aprovado as propostas que ANBP/SNBP produziram e apresentaram por escrito, muito do que sucedeu este ano teria sido, com certeza, evitado. Sim, teria sido evitado porque 99% das conclusões de TODOS os relatórios que este ano foram produzidas, FORAM POR NÓS estudadas, discutidas e apresentadas POR ESCRITO aos Governantes, na Assembleia da República, aos Deputados e nas Comissões Parlamentares onde fui ouvido e, modéstia a parte, procurei e procurou a Direcção da ANBP/SNBP ser o mais criteriosa possível no sentido de apresentarmos, como o fizemos, um trabalho deveras inovador. Basta compará-lo com as conclusões dos actuais relatórios que foram este ano apresentadas.

A grande diferença para os Governantes é que a ANBP/SNBP, por exemplo, quando disse há 10 anos que era URGENTE profissionalizar, caiu o “carmo e a trindade” e, claro, em coro, o Governo e algumas organizações que dizem que representam os bombeiros MAS NÃO REPRESENTAM, criticando a ANBP/SNBP porque além de não haver dinheiro para profissionalizar iríamos, VEJAM LÁ, acabar com o voluntariado. A Comissão constituída pela Assembleia da República este ano disse que era UMA DAS CONDIÇÕES para solucionar tais tragédias- profissionalizar- além de muitas outras conclusões apuradas, como já referimos, pela ANBP/SNBP ao longo destes últimos 21 anos.

Devido a todo este laxismo, pelo facto dos sucessivos Governantes NÃO INVESTIREM nem nos bombeiros profissionais nem nos bombeiros voluntários, criaram-se condições para minimizar e até ridicularizar o trabalho dos bombeiros independentemente do cargo ou funções ou mesmo se eram voluntários ou profissionais.

E como os BOMBEIROS PORTUGUESES, profissionais ou voluntários não entendem nada de técnicas de fogo, nem de sinistros porque os GOVERNANTES não lhes deram nem oportunidade nem condições legislativas para se actualizarem, serem formados e constituírem a FORÇA que este País necessita no que respeita a uma área tão importante para Portugal como é a da protecção civil e bombeiros, aconteceu, infelizmente, o que todos sabemos e vimos!

Claro que, e infelizmente, os POLÍTICOS fazem sempre e por norma o mais fácil tendo como referência os quatros anos de governação, ou seja, recorreram aos GIPS da GNR quando deveriam investir MUITO MAIS nos bombeiros portugueses. E também como não sabemos comandar, porque os GOVERNOS nada fizeram para nos formar, logo, os culpados da catástrofe deste ano e de todas as outras de anos anteriores foram os Comandantes e os bombeiros portugueses!?

Mas o ridículo de tudo isto é que, se os bombeiros não têm formação para apagar fogos ou para comandar, como a teve ou vai ter a GNR? A formação que não é ministrada e devidamente organizada para os bombeiros portugueses também não o é nem nunca foi ministrada à GNR!

Então como pode o actual Governo insistir na mesma solução, substituindo os bombeiros pela GNR? É legítimo afirmar que o Corpo de Homens e Mulheres da GNR, independentemente do seu posto, não são culpados pelas asneiras que os anteriores Governos fizeram e que o actual Governo quer fazer!

Como também é legitimo dizer o contrário. Ou seja, que culpa teriam os bombeiros se o Governo decidisse que quem iria ocupar as inúmeras esquadras distribuídas pelo País, onde os efectivos da GNR não existem ou são escassos e a população carece de segurança, seriam os bombeiros?

Continuarei a lutar pela classe dos Bombeiros Portugueses, voluntários ou profissionais, para que sejamos valorizados, nos peçam responsabilidades mas que nos garantam também condições para sermos melhor formados, melhor preparados e possamos ter MELHOR DESEMPENHO NAS NOSSAS FUNÇÕES EM PROL DAS POPULAÇÕES, SEJAMOS VOLUNTÁRIOS OU PROFISSIONAIS.

Não posso deixar de referir uma das máximas da luta de classe que é: BOMBEIROS DE PORTUGAL UNI-VOS!

Mas refiro também com muita convicção que, se não colocarmos de parte o que nos divide, que é muito menos que o aquilo que nos UNE, de certeza que o nosso País ficará PIOR no que diz respeito à segurança das populações e dos seus bens e nós continuaremos a eleger políticos que ao longo de 21 anos disseram, “Estamos sensíveis para os problemas dos bombeiros portugueses e vamos rever, nomeadamente, a carreira dos bombeiros profissionais. Podem contar com o meu Governo se formos eleitos” e contribuíram para que os bombeiros não se modernizassem e que continuemos a ver ridicularizado o nosso sector e a nossa classe – BOMBEIROS DE PORTUGAL.   

Fernando Curto
Artigo de dezembro de 2017
Publicação efectuada pela ANBP

 

 

 

 

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