Opinião: “Não Podemos Esperar Mais Tempo, Os “Outros” Já Partiram e Levam Meses de Avanço”

Nos últimos meses, a recente evolução de acontecimentos e registos (incêndios, relatórios, opiniões de especialistas, decisões politicas), menos positivos, visando os Bombeiros Portugueses e as suas estruturas, devem suscitar natural preocupação e a necessidade de se encontrarem soluções para os problemas, sob pena de – se não o fizermos! – estarmos a caminhar para uma situação de hipoteca do futuro do sector, onde, seremos paulatinamente substituídos por outros “players” do sistema.
É na linha destes princípios e orientações que – a meu ver – importa mobilizar e convergir forças e vontades, com inquietude e sentido de responsabilidade, construindo, para Bombeiros Portugueses, um novo modelo de funcionamento, alicerçado numa liderança moderna, profissional, permanente e pró-ativa, sem prostituir a nossa identidade, dignidade e natureza social.
Esgotado que está a eficácia do atual modelo de “governance” do sector, seja no domínio administrativo, seja na esfera operacional, deverá constituir um imperativo de consciência afirmar os Bombeiros Portugueses, por via do profissionalismo e da competência, chamando novamente a si, o papel privilegiado na dinamização e implementação de tudo o que importa ao sector da Protecção e Socorro em Portugal, legitimados pela condição de principal agente de Protecção Civil no País, sendo esta uma verdade indesmentível, provada no terreno.
Os Bombeiros Portugueses, nas suas diversas missões, quer no domínio da proteção e socorro das populações e dos seus bens, quer na defesa do património e do ambiente, para além do trabalho desenvolvido na área do pré-hospitalar, têm de se afirmar e figurar como o centro da atividade do Sistema de Proteção e Socorro em Portugal, o que pressupõe a adoção de uma estratégia de modernidade e de aprofundado conhecimento, potenciada, entre outros fatores essenciais e determinantes, pela relação de proximidade com as populações e toda a empatia que criam junto destas, somando-lhe o manifesto reconhecimento traduzido em várias iniciativas registadas pelo País, a que nenhum poder instituído deve ficar indiferente e ser alheio, quando toma uma decisão que implique os Bombeiros Portugueses.
Os Bombeiros Portugueses e, sobretudo, o efeito prático da sua ação junto das populações, tem de ser revelador da adoção de valores, através dos quais consigamos recuperar o carisma e a mística e, por consequência, na perspetival institucional, afirmar os Bombeiros Portugueses para futuro, sem malabarismos ou decisões momentâneas e esporádicas, que de estruturais nada apresentam ou manifestam intenção.

Investir na capacidade operacional é igualmente importante, constituindo-nos como uma referência ao nível da inovação, seja na base da formação e instrução, incorporando novos conhecimentos, seja ao que aos equipamentos e viaturas diz respeito.

Para além da questão técnica-operacional, os Bombeiros Portugueses, têm de cultivar a capacidade do exercício da influência e na promoção do contraditório em relação ao que muito é dito e feito pelos poderes instituídos e outras organizações do sector, o que nem sempre corresponde à verdade e às aspirações dos Bombeiros Portugueses, levando muitas das vezes a deturpações da verdade junto das populações e órgão de comunicação social, anulando ou descredibilizando toda a atividade dos Bombeiros Portugueses.
O absoluto respeito pela história e pelo esforço coletivo de várias gerações que fizeram dos Bombeiros Portugueses, uma instituição plural e atuante, justifica que nos mobilizemos no sentido de invertermos o curso dos acontecimentos, impulsionados por uma visão e atuação fortes e capazes; uma visão e atuação que privilegie o rigor, a autonomia, a responsabilidade e a flexibilidade na gestão; uma visão e atuação que prima pela disponibilidade e prontidão na execução das tarefas; uma visão e atuação assente no trabalho de equipa multidisciplinar; uma visão e atuação que observe a cultura da exigência e a qualidade dos serviços prestados; uma visão e atuação exercida na base da gestão profissional.
Todos temos plena consciência que cada Associação/Corpo de Bombeiros, tem uma raiz local, originária na sua sociedade, mas também sabemos que, o somatório de todas as Associações/Corpos de Bombeiros, nos dá uma expressão nacional, incomparável, quando olhamos para outras entidades ou instituições, e é neste pluralismo e dinâmica, que os Bombeiros Portugueses se tem de afirmar e motivar, para observar o futuro de forma diferente, onde todos e cada um de nós terá de dar um pouco mais!
Em nome dos superiores interesses dos Bombeiros Portugueses, é imperioso olharmos para o futuro com uma visão de modernidade e progresso, devolvendo a esta grande Instituição, o espaço de resposta e capacidade operacional que foi perdendo nos últimos anos, a que não somos alheios!
Assim, porque urge uma mudança, uma alteração de paradigma, devemos pugnar pela verdade, quando se fala dos Bombeiros Portugueses, e não dispensar a seriedade das palavras, dos argumentos, do realismo nas propostas que possam ser apresentadas, na responsabilidade na atuação e nos caminhos futuramente assumidos, no sentido de compromisso, no relacionamento e frontalidade com os intervenientes do sector, congregando sensibilidades e práticas, porque, é no pluralismo que devemos afirmar a nossa força e a capacidade coletiva dos Bombeiros Portugueses.

Não poderemos esperar muito mais tempo, porque os “outros” já partiram e levem-nos uns meses de avanço…

Com a humildade que nos caracteriza e capacidade natural é necessário desde já iniciar o trabalho de casa e poderemos não ter outra oportunidade…

Se falharmos a história não nos perdoará…

Nélio J. Gomes
Comandante do CB de Pataias

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