Opinião: “O Actual Sistema Começa a Não Conseguir Manter Padrões Aceitáveis de Resposta”

Foto meramente ilustrativa
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Como é sabido o sistema de proteção e socorro em Portugal assenta na sua maioria no voluntariado sendo praticamente o único país dos países ditos “evoluídos” a continuar com esse sistema.

Embora, este sistema a alguns anos atrás tenha tido alguma eficácia, sempre relativa, com o evoluir das sociedades e consequente aumento dos riscos, em especial de origem tecnológica, o sistema começa por mostrar a sua vulnerabilidade e a não conseguir manter padrões aceitáveis de resposta, muito devido ao aumento de situações de emergência e da complexidade das mesmas.

De salientar, que o governo não controla diretamente (voluntariado) devido ao facto dos corpos de bombeiros pertencerem a Associações Humanitárias.

Ao deparar-se com as fragilidades do sistema principalmente nos maiores desastres que o país assiste os incêndios florestais, o governo vê-se obrigado a agir, mas como somos Portugueses inventamos, em vez de se passar de um sistema de proteção e socorro profissional, complementado por um voluntário, mante-se a mesma linha, e complementou-se o sistema voluntário com um sistema profissional e assim nasceram os GIPS e os Canarinhos.

Esta alteração veio trazer aumento na qualidade da resposta aos incêndios florestais e alguma sensação de segurança, mas no que concerne à resposta do sistema às outras situações os ganhos foram residuais ou quase nulos.

Mas como foi novamente notório o ano passado o sistema não respondeu eficazmente e mais uma vez o governo focado somente nos incêndios florestais aumenta o sistema “alternativo” de proteção e socorro com mas 600 GIPS, deixando o restante na mesma.

E pasme-se, agora a ideia é de que os bombeiros voluntários só devem servir para combater incêndios urbanos e socorro à população, quando para além do facto de estes serem os detentores da experiência, países que optaram à anos atrás por esta via estarem neste momento a equacionar a opção tomada.

Pois com o aumento populacional e as alterações climáticas os incêndios florestais cada vez mais se desenrolam ou devido à sua dimensão atingem a interface rural/urbana sendo já muito questionada e considerada contraproducente que os bombeiros que combatem incêndios urbanos (cidades) não tenham formação nem combatam incêndios rurais ou florestais.

Bem sei que certas decisões políticas são difíceis de tomar, por um lado tem de se afrontar poderes instalados e lutar contra a normal resistência à mudança, por outro existem os custos das várias opções possíveis, mas será que a segurança e a vida dos Portugueses não vale isso?

Julgo, que já é mais que tempo, de deixar de resolver os problemas imediatos e “tapar o sol com a peneira” e resolver o problema da proteção e socorro em Portugal, em todas as suas vertentes.

Embora saiba que algumas medidas foram tomadas, embora de forma avulsa como é o caso da criação de Equipas permanentes nos corpos de bombeiros voluntários, estas não deixam de ser o adiar de uma situação definitiva e que será a inevitável reestruturação do setor.

Para existir essa reestruturação é inevitável que exista vontade política e convergência das várias forças políticas, mas a grande questão será como criar o sistema, sendo que as hipóteses são basicamente duas.

  1. A primeira hipótese passa pela criação de um corpo de bombeiros profissionais a nível nacional incluindo nestes os bombeiros profissionais já existentes, cada corpo de bombeiros com uma dotação mínima adequada aos riscos presentes na área de atuação, etc. fazendo deste o sistema base de proteção e socorro, que será complementado pelo existente sistema voluntário.
  2. A segunda hipótese é o aproveitar os corpos de bombeiros voluntários, passando estes para a dependência do governo/autarquias, criando nestes corpos de bombeiros mistos com uma dotação de profissionais tendo em atenção fatores como os riscos existentes na área de atuação etc.

Sabendo que a decisão deverá ter por base o custo-benefício das duas hipóteses possíveis, embora a mais difícil, por em causa interesses instalados, tradições, etc. será obviamente a passagem da tutela dos corpos de bombeiros voluntários das associações para o governo, ficando as associações com o papel de apoio social e recreativo aos corpos de bombeiros, e criar corpos de bombeiros mistos, nos quais existirá um número mínimo de profissionais, capaz de fazer face às necessidades da sua área de atuação e um número de bombeiros voluntários que complementará os profissionais.

Esta opção para além de ser mais barata (já existem viaturas, equipamentos e instalações), aproveita o conhecimento e a experiência existente nos bombeiros dessas associações, (obviamente que estes terão de submeter a testes físicos e de aptidão para ingressar na carreira profissional).

Paulo Raposo

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