
Hoje, vou usar linguagem corrente. Terra-a-terra. Direto como no quartel.
Hoje, fiquei ainda mais preocupado. Acordei cedo, de um sono difícil, à pressa. Cansado. Mal disposto. Inquietado.
Os bombeiros tem de estar preocupados. Os tempos são difíceis. Temos culpa. Todos!
Permitimos, dia após dia, mês após mês, ano a ano que nos “fritassem em cebola” como diz o povo. A cebola está há tempo demais a cozinhar. Está a ficar queimada.
Primeiro, abdicamos do Serviço Nacional de Bombeiros, em detrimento do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil. Depois deixamos “cair” o nome Bombeiros.
Começamos bem. Bem mal.
Depois extinguiram as zonas operacionais. O comando de proximidade dos bombeiros.
Os anos passaram e nunca soubemos marcar a nossa presença.
Nasceram outras forças. Estivemos calados. Não argumentamos. Limitamo-nos a apregoar “mundos e fundos” em surdina.
Tiraram-nos os comandantes distritais. E calados ficamos.
Subtraíram-nos o comando próprio. Somos um exército sem general. Limitamo-nos a estar em permanente servidão dos outros. Enfim, nunca visto.
A seguir, deixamos “partir” o comando nacional das mãos dos bombeiros. E continuamos sem que nada se passasse. “Ótimo” diziam uns, “é fácil dos enganar” diziam outros. E a cebola continuava a fritar.
Pelo meio, atribuíram ambulâncias a outras entidades. Criaram uma carreira de técnicos, só para alguns. Os de amarelo. “Sacaram-nos” os TAS das VMER. Abriram ambulâncias por “todo o lado”. Impingiram-nos a ideia de vender o produto dos outros. E passamos a “circular” de RAL 1016. E nós? Fizemos de conta que tudo estava bem. “Ótimo”.
Mas isto das ambulâncias, é coisa que não interessa nada. Ou importa pouco, dito de outra maneira. Só conta para os tostões.
Retomando. Para completar o arranjo, abrimos mão do combate. Ele há coisas para todos os gostos e feitios. Amarelos, cinzentos, brancos, verdes, ás riscas. Daqui, dacolá, do “Zé da esquina” e do “Manel dos feijões”. E viaturas vermelhas, há?
Tanto mais que haveria para aqui dizer. Para perguntar. Perguntas a mais, para respostas a menos. Só mais algumas.
Quando é que vão acordar? Quando gente? Custa assim tanto a perceber?
E os senhores. Aqueles de Lisboa. Os que dizem que nos defendem e nos representam. Não dizem nada? Andam tão caladinhos. Andam todos a dormir? Ou estarão ocupados com outras afazeres? Vejam lá. É que cá para cima, já cheira a cebola torrada. E ai por Lisboa, não?
E os carros novos. Os que estão para chegar. São bons. Lindos. Operacionais. Dão umas fotos brutais. Vão dar jeito. Era nos quartéis de bombeiros que eles deviam de estar. Já agora. E a instrução que os bombeiros andam a receber de outras entidades? Sobre combate. Que riso. Os “outros” a darem-nos instrução de combate. A sério? E os bombeiros vão? “Ótimo”, continuem a ir. Alimentem os egos. E alimentem os outros.
Não lutem. Mas também não “carreguem” as redes sociais de críticas. Os outros fazem o “papel” deles. Fazem-no bem. Com excelência. As maquinas de marketing são dotadas de um conhecimento e capacidade ímpar.
A “culpa”, bombeiros, comandantes e directores, tem um responsável individual conhecido: cada um de nós.
Mas haverá também de ter, um responsável colectivo: a história, um dia, encarregar-se-á de o revelar.
Há uns dias, um bombeiro, um “Zé bombeiro”, na sua ignorância e inocência. Naquele jeito de maltrapilho, dizia lá pelo quartel: “quanto mais nos baixamos, mais se vê o cú”. Ele saberá o que isso significa? Percebera o alcance? Mas não é que o “Zé” tem mesmo razão? Ele há coisas do diabo.
Esta noite, um anjo sussurrou-me ao ouvido que o diabo adora cebola frita e queimada.
Há mais. Muito mais cebola para fritar. Esperem para ver o que por ai vem. Breve. Para a semana talvez.
Luís Gaspar
