Opinião: “Já fostes. Bombeiros. Agradecei ao Marcelo!”

Foto meramente ilustrativa
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Marcelo, o nosso Comandante supremo, veio a este Reino dos Algarves e as primeiras palavras que declara são em frente a uma companhia da GNR, a que na mesma sexta-feira do segundo dia de fogos na serra de Monchique, e disse serra e não barrocal que o nosso Presidente é homem cultivado, não teve camiões luzidios para acudir às chamas e que ao quarto dia já usava das algemas para prender quem queria ficar a defender o que é seu. Depois cumprimenta a FEB, a mesma que não teve pinga-lumes para atear o que permitiria defender a serra. Quando chega aos bombeiros cumprimenta um tipo de barrete vermelho e colete. No barrete a palavra “direcção”, como se a direcção usasse fardas e agradece ao tipo que “ia telefonando”. Não preciso de lembrar a notável reportagem do Hugo Alcântara que constatou o óbvio.

Nem quero lembrar aquelas sedes de conselho, é mesmo conselho, onde a festa é na aldeia e a vila é assaltada. A manta é curta e destapa-se dum lado para cobrir o outro. Quando com 30 graus se exibem com cogula na cabeça estão a demonstrar a especialidade de quem se queixa por dormir no chão do polivalente mas não teve gasóleo para ficar a guardar e a patrulhar os reduzidos oito quilómetros que vão de Portela das Eiras à Perna da Negra -e se soubessem porque se chama assim ao monte seriam muito mais loquazes e teriam cá ficado a vigiar.

O povo, o que ficou sem as colmeias e o medronheiro, sabe quem acode. O país também sabe quem tem uma quadricula que trata todos por igual, quem tem infraestrutura aplainada de norte a sul. Concordo que se deva investir mais no ordenamento florestal, nas aldeias seguras e na organização comunitária que traga rendimento acrescido à floresta. Concordo que se contabilize o valor ambiental dos milhares de hectares ardidos como forma de valorizar a sua existência. Não posso é concordar que esse investimento seja feito à custa do combate.

O combate aos incêndios em Portugal devia estar adstrito apenas a uma entidade e essa entidade deviam ser os Bombeiros Portugueses. Mas muita coisa tem de mudar aqui. Mais recursos, mais exigência, mais responsabilização. Menos barretes vermelhos.

Bombeiros Portugueses, como se vê, quando a coisa realmente aperta, demonstram toda a sua disponibilidade para intervir, sem condicionantes e sem reservas, no combate da maior guerra que Portugal trava há mais de 40 anos. Uma guerra que infelizmente temos de travar todos os Verões. E que todos os Verões vamos perdendo. E com a qual não aprendemos nada.

O comandante bem desce de Trás-os-Montes a Faro, mas não traz a sebenta.

A forma de apoio a esta verdadeira “Força Armada”, a mais importante existente no país e a quem o comandante supremo volta costas, tem que ser repensada e restruturada por forma a cruzar as suas potencialidades com as exigências da sociedade actual que a limitam devido a sua maior virtude – o voluntariado, a abnegação e o altruísmo de tantas mulheres e homens. Talvez alguns gostem de enfiar o barrete vermelho mas voluntário não é sinónimo de amador.

É preciso que todos os responsáveis – Presidente, governo e autarquias – e igualmente a população, compreendam que é urgente e essencial complementar o voluntariado com grupos profissionais e alargar a todos os Corpos de Bombeiros a boa experiência que têm sido as Equipas de Intervenção Permanentes. Daqueles que só apagam fogos e que não se dividem entre montanhas, mergulhos, estradas, crimes, mar, refugiados e afins.

Olhem para Armamar. Num destes dias prenderam duas incendiárias. Duas mulheres. Foi a 4 de agosto. Ateou um incêndio em Santa Cruz, disse a Polícia Judiciária. Mais tarde, mas no mesmo dia, a GNR, que também apaga fogos, divulgou outra prisão. Também uma mulher, que, curiosamente, ateou um fogo em Santa Cruz de Armamar. Percebem? Isto não é para ver quem aparece mais, é para ver quem faz melhor. Fazer fazendo. A eficácia e a prontidão é o que se faz, não quem faz.

Mas uns usam cogulas para receber o Marcelo, os outros são os filhos da sociedade civil que em 1395 se organizou para apagar fogos e ficam enteados de mãe incógnita. Os mesmos que querem proteger o que é seu. Estranhamente o comandante supremo prefere os seus soldados de elite para cumprimentar primeiro. Depois a sua força especial e antes de chegar aos “jornaleiros” dá um abraço prolongado à “direcção”. E agradece a subversão, os telefonemas privilegiados, aqueles que permitem dizer “eu já sei”. Mas enquanto continuarmos a enxertar maças nas pereiras não teremos nem uma coisa nem outra. Teremos um híbrido. Uma espécie de transgénico. E o país, que fica sem medronho e sem mel, continua assim. Um reino de influências sem eficiências.

Augusto Meireles
Cidadão amargo sem mel para adocicar a vida; jornaleiro espoliado do medronheiro que iria aquecer o Inverno, bombeiro a tempo inteiro agora que perdeu o sustento nos cerros.

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