Opinião: A História dos Lances de Mangueira….

Imagem Ilustrativa. Fonte: https://tomartv.com/
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Era uma vez um incêndio florestal (rural como quiserem) com chamas enormes, gravadas em encostas com orografia difícil, sem acessos para os melhores veículos todo-o-terreno já alguma vez feitos, era de noite e os meios aéreos já haviam abandonado o teatro de operações há várias horas.

Ao longe, da estrada via-se as chamas a galgarem monte após monte, povoamento florestal atrás de povoamento e os combatentes incrédulos e com uma sensação de impotência enorme para conseguir chegar até lá, por forma a resolver o problema.

Havia-se perdido horas em busca de um caminho, havia-se pedido máquinas de todos os feitios e capacidades para abrir um acesso aos veículos para o combate, naquela altura era a única frente que se encontrava ativa, onde todas as populações focavam agora os seus olhos de pânico, incrédulos perante a impotência dos operacionais.

Os nervos e o stress batia já em níveis altos de perigosidade pela debilidade perante a capacidade de chegar até ao local. No meio dos operacionais alguém comete o erro de dizer: “e se montássemos uma linha de mangueira até lá?”, foi a risota geral, eram precisos lances de mangueira de dois carros para chegar lá tal a distância, era fisicamente exigente montar tal operação no entanto, na impossibilidade de os meios humanos fazer o trabalho sapador dado o cansaço físico que isso acarreta e a lentidão da operação continuava-se ali a perder tempo enquanto a janela de oportunidade passava. Como alguns diziam “vale mais uma mão inchada que uma enxada na mão”.

Até que, um luzidio veículo sai de uma curva apertada com gente vestida de outra cor, lá dentro vem um grupo de 5 operacionais, envolvidos em luzes azuis e num silêncio onde além do ruído do veículo só se ouvia a voz do líder, esse que sem passar cartão manda os homens montar uma linha de mangueira desde a estrada até à frente de incêndio.

Sem pensarem duas vezes, apesar de saberem que os lances que tinham não chegavam, iniciaram a missão levando consigo também material sapador. Incrédulos, os que há várias horas eram meros espectadores consideravam-nos “malucos”. Esticaram os lances até acabar mas não chegava à frente de incêndio. Num desabafo firme perante os que cépticos não acreditavam no que estava a acontecer o líder dirige-se aos outros operacionais e diz: “podem pelo menos emprestar-me lances dos vossos veículos?”, que a rirem-se responderam: “claro!!, vocês são mas é malucos”.

30 minutos depois, com os espectadores ainda de boca aberta, os 5 homens extinguiram a frente e foram embora suados, sujos e cansados, mas orgulhos, afinal o problema nunca esteve na falta de acessos, na falta de material ou na falta de condições, eles sabiam que a única coisa que tinha faltado ali era respeito pelas ordens dadas, coragem, iniciativa, disciplina e espírito de sacrifício.

Estes operacionais eram até aquele dia os homens e mulheres a quem os outros apenas criticavam a sua existência, mas nesse dia perceberam: eles só nasceram porque nós nunca fomos capazes de respeitar uma simples ordem, por mais que seja o esforço que ela possa acarretar, nunca nos entregámos como eles se haviam entregue naquele momento nem nunca pensámos que alguém fosse capaz de ir além das nossas capacidades.

Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. 

Ricardo Correia – ricardo@bps.com.pt

Fotografia meramente ilustrativa

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